
Estou entretido numa pesquisa pessoal onde procuro descobrir se
Jesus realmente existiu ou simplesmente não passa da mais poderosa lenda urbana a que se tem notícia?
Segundo o teólogo da UMESP (Universidade Metodista de São Paulo), Gabriele Cornelli:
“Não é preciso comprovar a existência de Jesus arqueologicamente, pois existem várias evidências históricas. Além da literatura cristã primitiva temos testemunhos do Talmude, um dos textos sagrados do judaísmo, e de Josefo, o primeiro historiador judeu. Do ponto de vista histórico, é mais do que suficiente”.O texto do historiador judeu
Flávio Josefo, mencionado acima, encontra-se em sua obra intitulada “Antiguidades Judaicas” (95 d.C.):
“Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, que praticou boas obras e cujas virtudes eram reconhecidas. Muitos judeus e pessoas de outras nações tornaram-se seus discípulos. Pilatos o condenou a ser crucificado e morto. Porém, aqueles que se tornaram seus discípulos pregaram sua doutrina. Eles afirmam que Jesus apareceu a eles três dias após a sua crucificação e que está vivo. Talvez ele fosse o Messias previsto pelos maravilhosos prognósticos dos profetas”. (Josefo, “Antiguidades Judaicas” XVIII,3,2).
Este texto, que é uma tradução de uma versão árabe e talvez seje o que mais se aproxima do original, é colocado em dúvida sob acusação de interpolação por um escritor cristão, pois acredita-se que Josefo, na qualidade de judeu, nunca iria se reportar a Jesus desta maneira. Os eruditos se dividem em suas opiniões quanto à autenticidade deste texto, o que já não acontece quanto às supostas referências de Josefo a respeito da ressurreição e da messianidade de Jesus, onde todos são unânimes em admitir interpolações posteriores.
Em outros lugares de sua obra, Josefo também registra a execução de São João Batista (XVIII,5,2) e o martírio de São Tiago o Justo (XX,9,1), referindo-se a este como “o irmão de Jesus que era chamado Cristo”.
Os teólogos chamam a atenção para o verbo “ser” no passado, na expressão “Jesus que ERA chamado Cristo”, pois acreditam que esta forma testemunha contra uma possível adulteração cristã já que um cristão certamente escreveria “Jesus que É chamado Cristo”.
E o
Talmude, o que diz?
Esta coleção de antigos escritos rabínicos, que constituem a base da autoridade religiosa para o Judaísmo tradicional, não faz referência explícita ao nome de Jesus, porém os rabinos identificam o personagem em questão como o próprio. São referências nada simpáticas nem a Jesus nem à sua Igreja, e por este motivo tidas como isentas de adulteração por parte dos cristãos. É interessante observar que ao mencionar os milagres realizados, estes não são negados como fábulas contadas entre o povo, mas são relacionados como frutos de artes mágicas do Egito:
“Na véspera da Páscoa eles penduraram Yeshu [...] ia ser apedrejado por prática de magia e por enganar Israel e fazê-lo se desviar [...] e eles o penduraram na véspera da Páscoa.” (Talmude Babilônico, Sanhedrim 43a).
A favor do Cristo histórico existem também algumas referências de autores pagãos tais como a correspondência política entre o procônsul na Ásia Menor no ano de 111 d.C.,
Plínio, o jovem, e o imperador Trajano:
“...[os cristãos] têm como hábito reunir-se em um dia fixo, antes do nascer do sol, e dirigir palavras a Cristo como se este fosse um deus; eles mesmos fazem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar sua palavra, e nem negar um depósito quando exigido. Após fazerem isto, despedem-se e se encontram novamente para a refeição...” (Plínio, Epístola 97).
Uma outra referência é encontrada nos escritos de um dos mais famosos historiadores romanos chamado
Cornélio Tácito (55-117 d.C.), que também era governador da Ásia em 112 d.C., onde lemos:
“O fundador da seita foi Crestus, executado no tempo de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos. Essa superstição perniciosa, controlada por certo tempo, brotou novamente, não apenas em toda a Judéia... mas também em toda a cidade de Roma...” (Tácito, “Anais” XV,44).
Este texto encontra-se numa carta que trata sobre o incêndio criminoso de Roma, onde acredita-se que apesar de ter sido Nero o responsável, a culpa foi colocada em cima dos cristãos.
Um outro texto é o que está na carta de
Mara Bar-Serapião (73 d.C. ?), um sírio escrevendo ao seu filho Serapião sobre a busca da sabedoria, onde menciona um tal “rei dos judeus” identificado por muitos como Jesus. Diz ele:
“Que vantagem tem os judeus executando seu sábio rei?... O rei sábio não morreu; ele vive nos ensinos que deu.”Celso, o filósofo neoplatônico e grande inimigo do cristianismo também menciona Cristo em seus escritos.
A literatura cristã primitiva também é utilizada como evidência testemunhal do Cristo histórico. Os evangelhos e as várias epístolas neo-testamentárias são as principais delas. Mas existem outras posteriores tais como os escritos de
Júlio Africano (220 d.C.). Este menciona um historiador samaritano de nome Talo (52 d.C.), que é considerado como o primeiro gentio a mencionar Cristo indiretamente:
“O mundo inteiro foi atingido por uma profunda treva; as pedras foram rasgadas por um terremoto, muitos lugares na Judéia e outros distritos foram afetados. Esta escuridão Talo, no terceiro livro de sua história, chama, como me parece sem razão, um eclipse do Sol”.É prudente observar que não existe nada na história sobre os escritos de Talo, a não ser alguns fragmentos preservados nos escritos de Júlio Africano.
Mais evidências indiretas podem ser encontradas na defesa do cristianismo feita pelo jurista e teólogo
Tertuliano, que menciona uma correspondência entre Tibério e Pôncio Pilatos sobre Jesus (Apologia,2), e também no desafio do filósofo cristão
Justino, o Mártir, ao imperador Antonino Pio para que consultasse os arquivos imperiais deixados por Pilatos sobre a morte de Jesus Cristo (Apologia 1.48).
Os documentos históricos acima mencionados nos dão informações suficientes para sabermos apenas que Jesus foi um homem que viveu no primeiro século, chamado Cristo, Filho de uma mulher judia, operador de milagres que reuniu em torno de si vários seguidores que o adoravam como Deus. Este homem foi crucificado sob o governo de Pôncio Pilatos. Porém, sua identidade como Filho de Deus e Salvador da humanidade ficam circunscritas aos escritos essencialmente de origem cristã.
Minha conclusão pessoal pelas pesquisas que tenho realizado (essencialmente modestas) é que a existência do personagem histórico chamado Jesus é praticamente irrefutável. Um dos argumentos mais fortes que vejo a favor deste fato é que, caso Jesus nunca houvesse existido e tudo não passasse de pura lenda ou crendice popular, isto seria muito facilmente refutado por aqueles que viveram bem próximo ao tempo e local onde tudo se originou. No entanto, tudo o que encontramos são referências combatendo sua pessoa e refutando sua doutrina, mas nenhuma deixando dúvida quanto a sua existência.
Como
a verdade não teme investigação, continuo pesquisando e principalmente aguardando comentários que venham pesar do outro lado da balança.