quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Houdini contra a Bruxa Loira da Rua Lime (11)

por Massimo Polidoro

(Continuação)

A INVESTIGAÇÃO DE HARVARD


Embora impedido de entrar em mais sessões espíritas de Margery, Houdini tinha um amigo jornalista Stewart Griscom infiltrado entre eles para mantê-lo informado dos últimos desenvolvimentos. Isto permitiu o mágico continuamente atualizar seu plano de exposição para o assombro dos seguidores de Margery.

Os ataques do Houdini receberam apoio de uma investigação conduzida no final da primavera de 1925 por um grupo de psicólogos da Universidade de Harvard. Os resultados publicados no Atlantic Monthly (novembro 1925), revelou que Margery tinha sido observada executando vários tipo de subterfúgios:


- Ela tirou uma faixa luminosa colocada no seu tornozelo para denunciar seu movimento e com seu pé livre conseguiu “flu- tuar” um disco luminoso;

- O grupo de Harvard também estabeleceu que ela tinha podido usar o seu pé direito para tocar um sino e tocar os assistentes.

Finalmente, Margery caiu numa armadilha. Um experimentador sentando-se em um lado ofereceu para libertar a sua mão: ela imediatamente aceitou e usou disto tirar algum ectoplasma falso de seu colo e o colocar na mesa.

NOTA DO EDITOR:

Algo me intriga muito nesta história toda. Aqueles que estão acompanhando esta série já entenderam que de todas as manifestações e "fenômenos" espiritualistas que foram devidamente investigados no fim do século XIX e começo do século XX, todos, sem exceção, foram comprovadamente expostos como resultado de fraudes ou truques ilusionistas. Sendo assim, por que motivo movimentos religiosos que possuíam profetas diretamente orientados por Deus, como os Adventistas do 7º Dia com Ellen G. White, insistiam em dizer que tais manifestações eram fruto da ação sobrenatural do Diabo e seus anjos rebeldes? Por que Deus não lhes revelou que tais manifestações não tinham nada de sobrenatural, mas que eram apenas o resultado da ação humana operando enganos e mentiras? A demonização do espiritismo por parte dos crentes, além de ser uma completa ignorância das verdadeiras estratégias humanas por trás dos fenômenos, acaba sendo também o atestado de incompetência do próprio Diabo que não é capaz de criar uma única manifestação verdadeiramente convincente, mas só aqueles truques ridículos que exigem pouca luz e muita safadeza. Não quero com isso ofender a fé dos espíritas, pois os respeito da mesma forma que respeito todas as demais religiões. Porém, só não admito que na ânsia por provar verdadeira suas crenças, fabriquem-se, sem o menor escrúpulo, ilusões com o claro objetivo de enganar e mentir. Uma coisa é pedir para que as pessoas tenham "fé" no mundo dos espíritos e na vida após a morte (acredita quem quiser), outra coisa muito diferente é se fantasiar de fantasma para provar que sua fé é a verdadeira. Bem, acho que vocês entenderam.


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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Houdini contra a Bruxa Loira da Rua Lime (10)

por Massimo Polidoro

(Continuação)

A APARÊNCIA SUSPEITA DO ECTOPLASMA DE MARGERY


Em 1924, enquanto as discussões continuavam, Margery começou a produzir ectoplasma durante suas sessões espíritas. Como outra famosa médium, Eva C., sua substância também foi dita sair de seus orifícios corpóreos. Isto é uma suposição, naturalmente, já que costumeiramente Eva atuava na escuridão.

Entretanto, a fama de Margery tinha se espalhado pela Europa e ela se tornou particularmente bem conhecida na Inglaterra.

Conan Doyle, que já tinha encontrado os Crandons, expressou o desejo de participar em novas sessões com a médium, mas a reunião nunca aconteceu e os jornais informaram: “Margery Teme que Nevoeiro Possa Impedir as Sessões em Londres”.


A Sociedade Americana para Pesquisa Psíquica também ficou interessada no caso e se a médium não viesse à Sociedade, a Sociedade iria até a médium. Isto aconteceu quando o pesquisador inglês Eric J. Dingwall ficou impressionado durante uma sessão espírita feita na luz vermelha de uma lanterna ligada e desligada pelo Dr. Crandon seguindo as ordens de ‘Walter’, quando coisas que pareciam-se com mãos se materializaram no colo de Margery. Animado, ele escreveu ao pesquisador psíquico von Shrenck-Notzing:


"É o mais belo caso de telecinese teleplástica com que estou familiarizado. Pode-se livremente tocar o teleplasma. As mãos materializadas estão unidas por cordões ao corpo da médium; elas agarram os objetos e os movem. As massas teleplásticas são visíveis e tangíveis sobre a mesa, em excelente luz vermelha eu seguro as mãos da médium; vejo dedos e os sinto em boa luz. O controle é irrepreensível" (Dingwall, 1928).


O entusiasmo, no entanto, morreu rapidamente e Dingwall começou a ter dúvidas. Compreendeu que ele nunca tinha podido realmente ver o ectoplasma sair do corpo da médium. A fraca luz não era tão boa quanto ele anteriormente de forma entusiástica tinha descrito, e as mãos talvez não tenha sido completamente formadas e eram estáticas antes que portadoras de movimento.


Dingwall lembrou-se de que quando lhe foi permitido segurar a substância materializada, a médium imediatamente começou a se virar em sua cadeira e a massa foi retirada da minha mão. Parecia simplesmente uma sacola elástica e amassada quando foi puxada longe. Tentei segui-la quando caiu no colo da médium, mas ela resistiu arduamente, jogando sua perna esquerda para a mesa e forçando minha mão para longe daquilo com a sua própria. Outra prova crucial tinha fracassado completamente (Dingwall, 1928).


A substância estava claramente inanimada. Em um ponto, enquanto o ectoplasma materializante era iluminado, Margery de fato colocou no chão a mão dela com a mão de Dingwall ainda controlando-o, e jogou a massa sobre a mesa.

Mas do que esta substância era feita? Os quadros tomados por Dingwall mostram um ectoplasma muito duvidoso. A massa tinha a aparência de tecido animal e um exame das ampliações das fotografias exibia certas marcações de anel que Dingwall pensou “fortemente assemelharem-se aos anéis cartilaginosos achados na traquéia mamífera. Esta descoberta levou(o) à teoria que as mãos eram fraudulentamente feitas de algum material de pulmão animal, tecido cortado e unido, e que parte da traquéia tinha sido usada para o mesmo propósito”.


Mais exames dos quadros por biólogos em Harvard levaram à mesma conclusão – o ectoplasma “indubitavelmente era composto do tecido pulmonar de algum animal” (Tietze, 1973). Além de ir a qualquer açougueiro e obter o material, o Dr. Gandon não teria qualquer dificuldade em obter as substâncias necessárias já que trabalhava no Hospital de Boston. No seu relatório, Dingwall preferiu não tirar qualquer conclusão, mas sugeriu que a médium podia esconder o ectoplasma fraudulento em suas cavidades corpóreas e podia expulsá-lo depois através de contração muscular.


Nesse ínterim, o Comitê da Scientific American por fim emitiu seu veredito oficial em 11 de fevereiro, 1925. O relatório declarou:

“Observamos fenômenos, cujo método de produção nós não podemos em cada caso alegado ter descoberto. Mas nós não observamos nenhum fenômeno em que pudéssemos afirmar que eles não tivessem sido produzidos por meio normal”.

Dificilmente o que Houdini teria gostado, mas em todo o caso, isto ao menos queria dizer que Margery não tinha ganho o prêmio.

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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Houdini contra a Bruxa Loira da Rua Lime (9)

por Massimo Polidoro

(Continuação)

OPINIÕES DIVERGENTES


Houdini, convencido que tinha incontestavelmente mostrado que Margery era uma fraude, escreveu em um dos seus panfletos:

"Eu acuso a Sra. Crandon de praticar suas façanhas diariamente como um mágico profissional. Também que por causa de seu treinamento como secretária, sua longa experiência como uma musicista profissional, e seu corpo atlético, que ela não é simples e ingênua, mas uma mulher astuta, cheia de recursos extremos, e tira proveito de cada oportunidade para produzir uma 'manifestação'." (p. 23).


Carrington, o primeiro defendê-la, acusou Houdini de se interessar só em publicidade e declarou:

"A razão que eu não fui a Boston quando ele (Houdini) realizou suas sessões com 'Margery' foi que eu soube que ele não confiava em mim e eu soube que qualquer coisa que ele não pudesse explicar ele atribuiria à minha presença lá." (Boston Herald, 26 de janeiro, 1925).

Finalmente, não é surpreendente que um dos defensores mais árduos da médium era Conan Doyle:


"Este casal cheio de abnegação entedia com paciência exemplar todos os incômodos que surgiam das incursões destas pessoas irascíveis e injustas, enquanto que mesmo o grosso insulto que era infligido sobre eles por um membro do comitê não os impediu de continuar as sessões. Pessoalmente, penso que eles erraram sobre o lado de virtude, e que desde o momento que Houdini proferiu a palavra 'fraude' o comitê devia ter sido compelido ou a deserdá-lo ou a cessar suas visitas." (Doyle, 1930).

De acordo com Conan Doyle, os únicos membros honestos e fidedignos do comitê eram Carrington e Bird. Concernente a Bird, Conan Doyle disse que ele tinha um "cérebro melhor que Houdini" porque depois de 50 sessões espíritas "ele estava completamente convencido da genuidade dos fenômenos" (p. 18). No passado, Conan Doyle tinha expressado sua opinião em como formar um comitê "imparcial" :

"O que eu queria eram cinco bons homens de mente aberta que se agarrassem a isto sem preconceito absolutamente – como a Sociedade Dialética de Londres, que unanimemente endossou os fenômenos." (Progressive Thinker, 18 de abril, 1925).

A definição curiosa de Conan Doyle do termo "mente aberta" é ligada com a frase "acredita nos fenômenos e os endossa". Houdini não tinha uma "mente aberta" como Conan Doyle queria e ele também expressou sua surpresa que um comitê consistindo em cavalheiros pudesse ter permitido um ataque à reputação de uma senhora, e permitido a um homem "com padrões inteiramente diferentes fazer este ataque ultrajante".


O relatório oficial do comitê levou seis meses para ser completado. Os membros do comitê tinham jurado não revelar nada sobre as sessões até a publicação do relatório, enquanto Bird e o Dr. Crandon, não restritos por tal peso, alimentaram os jornalistas com o que Houdini considerou serem "mentiras negras".

Durante a irritação de Houdini, e a curiosidade do público pelo veredito do Comitê, um relatório preliminar foi publicado em outubro na Scientific American. Informava só os pareceres individuais dos membros, mas ao menos os libertava de seu juramento de confidencialidade. Houdini então publicou um panfleto por conta própria intitulado "Houdini Expõe as Fraudes Usadas pela Médium de Boston Margery" e começou uma excursão em que ele completamente expôs o ato de Margery.

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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Houdini contra a Bruxa Loira da Rua Lime (8)

por Massimo Polidoro

(Continuação)

A ÚLTIMA SESSÃO


Uma última sessão espírita foi planejada para 27 de agosto. Essa tarde Munn, Prince, o Dr. Crandon, Mina, e Houdini jantaram juntos fora de Boston. A médium, sabendo que Houdini estava prestes a denunciá-la desde o Keith’s Theatre em Boston, protestou que ela não queria que filho de doze anos lesse que sua mãe era uma fraude.

- “Então não seja uma fraude”, Houdini lhe disse.

Ela respondeu que se ele apresentasse erroneamente os fatos alguns de seus amigos entrariam em cena e lhe dariam uma boa surra. Houdini insistiu que ele não iria apresentar erroneamente nada (Houdini, p. 21).

O Dr. Comstock tinha inventado um artifício para imobilizar a médium para a última sessão espírita do comitê. Era uma caixa baixa em que Margery e um investigador, sentando-se um na frente do outro, poriam os seus pés. Uma tábua, ligada à caixa, seria trancada em cima dos joelhos, prevenindo a retirada dos pés. Os lados da caixa permaneceram abertos permitindo qualquer possível “estrutura psíquica” operar. As suas mãos foram seguradas pelo investigador e a caixa com o sino foi colocado fora da caixa-controle, tudo estava pronto para a sessão espírita começar.

Enquanto esperando para algo acontecer, o Dr. Crandon observou:

- “Algum dia, Houdini, você verá a luz e se isto for ocorrer esta noite, eu alegremente darei dez mil dólares à caridade”.

- “Pode acontecer”, Houdini respondeu, “mas eu duvido”.

- “Sim senhor” o Dr. Crandon repetiu, “se você se converter este noite eu alegremente darei $10.000 a alguma instituição de caridade” (pp. 21-22).


Foi uma “sessão vazia”, isso é, nada aconteceu. Houdini não se converteu e o Dr. Crandon manteve seus $10.000 (que Houdini interpretou como uma tentativa de suborno).

O artifício do Dr. Comstock, obviamente melhor que o usado por Houdini, mostrou que quando a médium era imobilizada e controlada por um investigador (em vez que por seu marido), os fenômenos desapareciam. Como de costume acontece em tais casos: quando os controles são 0% os fenômenos são 100%; quando controles são 100% os fenômenos são 0%.

Enquanto Margery não ganhou o prêmio da Scientific American a dúvida sobre sua honestidade pela investigação do comitê não foi suficiente para destruí-la aos olhos do público. Malcolm Bird renunciou à Scientific American depois do anúncio de Houdini num programa de rádio: “Eu publicamente denuncio aqui Malcolm Bird como sendo cúmplice de Margery!” Depois de renunciar, Bird passou seu tempo promovendo Margery.

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domingo, 11 de outubro de 2009

Houdini contra a Bruxa Loira da Rua Lime (7)

por Massimo Polidoro

(Continuação)

O PASSO EM FALSO DE HOUDINI


Quando o comitê se encontrou um mês mais tarde aí claramente havia uma guerra aberta entre Houdini, que queria expor a médium de uma vez por todas, e Margery, que queria fazer com que Houdini parecesse um tolo.

Foi então que Houdini fez seu pior movimento, introduzindo no cenário experimental uma limitação ridícula para controlar a médium. Era uma caixa de madeira grande dentro da qual a médium sentar-se-ia deixando só a sua cabeça e mãos para fora.

O problema principal com forma tão extrema de controle é que dava à médium a oportunidade de queixar-se que o gabinete impedia a materialização dos “pseudópodes” necessários para executar os fenômenos e a dava um álibi para uma possível ausência dos mesmos.


Havia também outra desvantagem: se o gabinete não fosse realmente à prova de fraude como Houdini acreditava ser e Margery pudesse achar uma maneira de fazer algumas fraudes, ela podia alegar que isto provava que ela tinha demonstrado capacidades paranormais. Se a fraude mais tarde fosse descoberta, Houdini pareceria incompetente.

Em 25 de agosto, no apartamento de o Dr. Comstock, Margery foi “encaixotada” e as luzes apagadas. A caixa com o sino, colocada numa mesa na frente do gabinete, tocou, mas quando as luzes foram ligadas, a tampa no gabinete parecia ter sido forçada para abrir. Houdini sugeriu que, com a tampa aberta, Margery podia ter tocado o sino por jogar sua cabeça para a frente. A médium negou qualquer responsabilidade alegando que ‘Walter’ tinha forçado a abrir a caixa-gabinete.


O gabinete tinha provado sua inutilidade mas Houdini quis tentar novamente. Ele tinha selado tampa com faixas de aço e cadeados e preparado para a próxima noite.

Essa noite começou com a entrada dramática de Bird que exigiu saber por que ele tinha sido deixado de fora das sessões espíritas. Houdini respondeu friamente, “Oponho-me ao Sr. Bird estar no local de sessão espírita porque traiu o Comitê e impediu seu trabalho. Ele não manteve para si coisas que lhe foram contadas em confiança mais estrita como deve a um Secretário ao Comitê” (Ibid., p. 15). Bird a princípio negou mas então admitiu que uma preocupada Margery o tinha convencido a contá-la os fatos. Tendo dito então, renunciou do comitê e partiu.

Então e aí Prince foi eleito como o novo Secretário. A sessão espírita começou com Margery confinada na caixa-gabinete e Houdini e Prince em seus lados segurando as suas mãos. Houdini particularmente insistiu que Prince nunca soltasse a mão da médium até que a sessão espírita estivesse terminada. Isto levou Margery a perguntar para Houdini o que ele tinha em sua mente.


- “Você realmente quer saber?” Houdini perguntou.

- “Sim”, disse a médium.

- “Bem, eu te contarei. Em caso de você ter contrabandeado algo para dentro da caixa-gabinete você agora não pode ocultar isto com suas mãos enquanto estejam seguras e enquanto elas estejam envolvidas você está desamparada”

- “Você quer me revistar?” ela perguntou.

- “Não, não se preocupe, esqueça,” disse Houdini. “Eu não sou médico”.

Logo depois, ‘Walter’ apareceu no círculo dizendo:

- “Houdini, você é muito esperto de fato mas isso não funcionará. Suponho que foi um acidente que essas coisas foram deixadas no gabinete?”

- “O que foi deixado no gabinete?” perguntou o mágico.

- “Foi puro acidente isto? Você não estava aqui mas seu assistente estava”.


‘Walter’ então declarou que uma régua seria achada na caixa do gabinete sob um travesseiro nos pés da médium e acusou Houdini de ter seu assistente o colocado aí para jogar suspeita sobre sua irmã. Então ele terminou com uma explosão violenta em que exclamou:

- “Houdini, seu maldito filho da puta, saia daqui e nunca mais volte. Se você não o fizer eu o farei”! (Pp. 17-18).

Uma procura do gabinete revelou a presença de uma régua de carpinteiro desmontável. Mas a pergunta surgiu: quem a colocou aí? Houdini alegou que foi Margery. Colocando a régua pela abertura do pescoço, o mágico explicou, ela facilmente podia ter tocado o sino. Também, a médium tinha sugerido que os buracos dos braços nos lados do gabinete fossem entabuados o que permitiria que ela movesse as suas mãos livremente e não controladas dentro do gabinete. Margery rejeitou as acusações e acusou Houdini, sugerindo que seu assistente Jim Collins tinha escondido a régua para desacreditá-la.

Collins, no entanto, tinha sido interrogado essa mesma noite na ausência do Houdini, e prestou juramento que ele não colocou qualquer régua dentro do gabinete, que ele nunca tinha visto essa régua, e que sua própria régua estava no seu bolso.

Mas de acordo com escritor William Lindsay Gresham, Collins admitiu que escondeu a régua: "Eu mesmo atirei isto na caixa. O chefe me pediu que o fizesse. ‘Ele queria dar um bom jeito nela’"(Gresham, bom 1961, p. 219).

Milbourne Christopher, mágico e historiador, expressou dúvida sobre este incidente em Houdini the Untold Story.


A fonte desta história, embora não dada por Gresham, foi Fred Keating, um mágico que tinha sido convidado dos Crandons em sua casa na rua Lime na época em que Carrington investigava a médium. Keating, no entanto, não era imparcial. Vários dias antes de Gresham falar com ele, Keating tinha visto um manuscrito inédito na coleção deste autor em que Houdini, enquanto elogiava Keating enquanto mágico, tinha comentado em termos pouco lisonjeiros as capacidades de Keating como um investigador de fenômenos psíquicos. Na opinião deste escritor, a história de admissão de Collins é pura ficção (Christopher, 1969, p. 198).

Quem pôs a régua na caixa permanece desconhecido até hoje. Talvez tivesse sido revelado se na época um laboratório pudesse ter examinado a régua achada dentro da caixa pelas impressões digitais ou outros vestígios úteis. Evidentemente o comitê da Scientific American não era tão científico afinal de contas.

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sábado, 10 de outubro de 2009

Houdini contra a Bruxa Loira da Rua Lime (6)

por Massimo Polidoro

(Continuação)

A SEGUNDA SESSÃO


Na noite seguinte, Margery concordou em realizar a sessão espírita no conjunto de hotel em que o Dr. Comstock permaneceu. Desta vez, o grupo sentou-se ao redor de uma mesa, com Houdini à esquerda da médium.

‘Walter’mandou que todo o mundo se afastasse da mesa de modo que ele talvez reunisse a força necessária para levantá-la. “Isto”, comentou Houdini, “era simplesmente outro estratagema da parte da médium, para quando todo o restante voltasse ela voltasse também e isto lhe desse espaço suficiente para dobrar a sua cabeça e empurrar a mesa para cima” (Houdini, p. 9).

Houdini pôde confirmar sua teoria quando, depois de soltar a mão de Munn, ele começou a tatear ao redor embaixo da mesa até que ele sentiu a cabeça da médium. O mágico cochichou a Munn que podia denunciá-la e expô-la imediatamente mas o redator propôs esperar e a sessão espírita continuou.


Era então a vez da caixa-sino. Outra vez ela foi colocada entre pés de Houdini, outra vez Margery pôs o seu tornozelo contra o do mágico e outra vez, na escuridão, Houdini, que tinha enrolado a calça da sua perna como a noite anterior, sentiu-a esticar seu pé para tocar o sino. A fivela da liga de Houdini, no entanto, tinha pego a meia da médium, impedindo-a de chegar à caixa.

- “Você tem ligas, não tem?” ela perguntou.
- “Sim”, Houdini respondeu.
- “Bem, a fivela me machuca”.

Depois de jogar a liga fora, Houdini sentiu que a perna da mulher esticar outra vez e o sino ressoar cada vez que seus músculos se estendiam. A sessão espírita terminou, Crandon deixou o lugar e o comitê discutiu o que tinha acontecido. Houdini contou aos outros sobre sua descoberta e deu uma demonstração prática. O comitê, no entanto, decidiu esperar até que eles estivessem em Nova Iorque antes de emitir um comunicado para a imprensa. Entretanto, era necessário que os Crandons não soubessem sobre as descobertas de Houdini.


Munn e Houdini deixaram Nova Iorque e Bird permaneceu como um convidado com os Crandons por mais três dias. Mais tarde ficou-se sabendo que ele tinha contado a Mina e a seu marido o que Houdini tinha descoberto e o que o comitê pretendia fazer. Desse momento em diante Margery ficaria em guarda.

Chegando em Nova Iorque, Munn rasgou um artigo da Scientific American por Bird em que ele elogiava as capacidades de Margery. Ele, no entanto, não podia parar os jornais de informar as declarações de Bird. Algumas manchetes que apareceram nos jornais do dia eram:

“Médium de Boston Confunde os Peritos;
“Cientistas Confusos Com as Revelações, Poder Psíquico de Margery Estabelecido”;
“Peritos em Vão Procuram Trapaça em Demonstração Espiritualista”;
e então um que fez o mágico ferver com cólera: “Houdini o Mágico Desconcertado”.

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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Houdini contra a Bruxa Loira da Rua Lime (5)

por Massimo Polidoro

(Continuação)

O MÁGICO E A BRUXA


Quando Houdini e Munn chegaram em Boston em 22 de julho e tomaram seus lugares no Copley Plaza Hotel, Houdini ficou chocado em saber que Bird e Carrington tinham aceitado a hospitalidade dos Crandons. Quão imparcial seu julgamento podia ser se eles eram convidados da parte que eles foram pedidos investigar? Mas a acomodação, como mais tarde se ficou sabendo, não foi a única lisonja oferecida aos membros do comitê. Carrington, por exemplo, tinha emprestado algum dinheiro do Dr. Crandon, e Bird tinha recebido até um cheque em branco para seu despesas.


Uma influência regular e mais perigosa, no entanto, ameaçava a integridade dos investigadores: os atrativos de Mina, que usava somente um vestido fino e meias sedosas durante as sessões espíritas. Ela obviamente encantou Bird, e só muitos anos mais tarde se soube que ela e Carrington freqüentemente tinham dormidos juntos. “Não é possível parar na casa de alguém (sic)”, Houdini explicou, “repartir o pão com essa pessoa freqüentemente, então investigá-la e chegar a um veredito imparcial” (p. 5).

No dia 23 de julho de 1924, Houdini participou pela primeira vez numa sessão espírita com a médium.


Uma façanha que tinha confundido os membros do comitê envolveu o uso de uma caixa de madeira com um interruptor elétrico que quando pressionado tocaria um sino colocado dentro da caixa. Nas sessões anteriores a caixa tinha sido posta no chão entre os pés de Margery, e o sino tinha tocado mesmo enquanto as mãos e pés da médium supostamente foram segurados ou “controlados”. Um membro do comitê segurou sua mão esquerda e tocou seu pé esquerdo, com seu marido presumivelmente fazendo o mesmo com o seu pé direito e mão. Com a médium assim “imobilizada”, os assistentes argumentaram que o único responsável pelos fenômenos somente podia ser 'Walter', o espírito-guia.


Quando Houdini chegou, se sentou à esquerda da médium e a caixa foi colocada entre os seus pés. A sua mão segurava a da médium enquanto o seu tornozelo controlava a sua perna. Houdini narra a história daí:

"Durante o dia todo eu tinha usado uma compressa sedosa de borracha ao redor dessa perna logo sob o joelho. De noite, a parte da perna sob a compressa tinha se tornado inchada e dolorosamente macia, assim deixando-a muito mais sensível e tornando mais fácil notar o deslizar mais leve do tornozelo da Sra. Crandon ou o flexionar de seus músculos" (p. 6).

A precaução pareceu ser crucial quando, depois de puxar suas saias bem para cima acima de os seus joelhos, Margery pediu escuridão. Aliás, continuou Houdini no seu relato da sessão:

"Eu distintamente podia sentir o tornozelo dela lenta e espasmodicamente correr enquanto era pressionado contra o meu até que ela ganhava espaço para levantar seu pé do chão e tocar o topo da caixa. Para a sensação comum de ser tocado o contato parecia o mesmo quando estava sendo feito. Às vezes ela diria: ‘somente aperte firme contra meu tornozelo de forma que você possa ver que meu tornozelo está ali’, à medida que ela era apertada, eu podia senti-la ganhando outra meia polegada. Quando ela finalmente tinha manobrado o seu pé ao redor de um ponto onde ela podia chegar ao topo da caixa o sino começou a tocar e eu positivamente senti os tendões de sua perna se flexionarem e contraírem enquanto ela repetidamente tocava o aparelho ressonante" (p.7).

A Ilustração abaixo demonstra como se processava a farsa de Margery


Quando o sino parou de tocar, Houdini sentiu que a perna da médium lentamente deslizava de volta à posição original no chão. Bird se sentou à sua direita com uma mão livre para “explorar” e a outra em cima de ambas as mãos da médium e do Dr. Crandon. Repentinamente, ‘Walter’ pediu que uma placa iluminada fosse colocada na tampa da caixa que segurava o sino. Bird levantou-se para fazê-lo e nesse momento ‘Walter’ pediu por “controle”. Margery colocou sua mão livre em Houdini e imediatamente o gabinete foi violentamente jogado para trás. A médium então deu seu pé direito para Houdini e disse: “Você agora tem tanto as mãos quanto os pés". Então ‘Walter’ avisou: “O megafone está no ar. Diga-me, Houdini, onde lançá-lo”. “Em direção a mim”, respondeu o mágico, e aquilo instantemente caiu aos seus pés.

Apesar do esperto trabalho de distração criado pela médium (Nota do Editor: os mágicos chamam isto de Misdirection), Houdini tinha podido entender o que realmente tinha acontecido na escuridão. Quando Bird deixou o quarto, ela ficou com o pé e a mão direitos livres.



Com sua mão direita ela deslocou o canto da cabina de modo suficiente para conseguir que seu pé ficasse solto debaixo dela, então, levantando o megafone, ela o colocou em sua cabeça, como um chapéu de bobo. Ela então podia derrubar o gabinete usando o seu pé direito que ela mais tarde daria a Houdini. Enquanto então pareceria que Margery estava sob controle completo por Houdini, simplesmente inclinar sua cabeça faria o megafone cair nos seus pés.



Depois da sessão, Houdini comentou: “Esse é o ardil mais astuto que eu já vi”. (p. 8).

Houdini tinha percebido a fraude depois de somente uma sessão, enquanto os outros membros do Comitê não tinham detectado a fraude mesmo depois de trinta.

Bird, assim como o Dr. Crandon, antipatizava com Houdini e detestava seu ar de superioridade. Crandon revelou seu preconceito anti-semítico contra Houdini numa carta a Doyle quando expressou pesar que “este judeu vulgar possa dizer algo sobre a palavra ‘Americano’” (Silverman, 1996, p. 325).

Continua...